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com a cabeça entre as orelhas

com a cabeça entre as orelhas

16
Dez20

Parece uma banheira futurista.

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Parece uma banheira futurista. Com luzes e tudo. Com tampa e tudo. Com música ambiente e tudo. Com botões que controlam o tudo daquilo.

A água salgada facilita o processo. É impossível não flutuar.

Parece simples e 40 minutos não são muitos minutos... até passarem a ser.

Perdi a roupa e o peso. Deitada num morno tapete salgado, decidi aproveitar o tempo para meditar. 

Fechei a tampa. Era só uma tampa. 

Apaguei as luzes. Eram só umas luzes.

Desliguei a música. Eram só uns sons.

Passada a claustrofobia inicial percebi a tranquilidade da privação sensorial. A ausência. Talvez apenas o batimento cardíaco ao fundo do ouvido direito. O sussurro da respiração.

Sabe bem conseguir não fazer nada por uns minutos a não ser existir. Sem luz. Sem som. Sem peso(s).

04
Set20

Setembro nasceu com as cores da saudade...

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Setembro nasceu com as cores da saudade, enquanto eu vou aprendendo a existir comigo mesma. A deixar atrás a vida sonhada. 

Ao entrar em casa penduro a ilusão como quem despe o casaco. 

Cá dentro nada. Cá dentro tudo.

Há um cansaço na forma de pensar e uma necessidade por identificar.

Pudesse eu ser diferente de mim.

01
Jul20

Todas as mulheres que amei.

Sabia que era capaz de a transformar. Via todo o potencial através do olhar escondido pelas mechas escorridas de cabelo. Tinha a certeza de tudo o quanto ela podia ser. Estava tão certa do que faltava concretizar que me esqueci de aceitar que nada daquilo existia. Não naquela altura. Não ainda. Talvez nunca.

Continuo sem saber quem amei naquelas tardes. A possibilidade que nunca viria a substanciar-se? A mim por me considerar excepcional a detectar o potencial alheio? 

“Se ela não for infeliz, o que lhe sobra? Tens que aceitar isso.” Um ano e meio depois a simplicidade e o pragmatismo destas palavras esbofetearam-me. Acabara de dar voz ao que eu não quisera ouvir. Nem ver. Ou sentir. Apesar de mo ter sido dito quando nenhum elogio chegou. Foi demonstrado de cada vez em que não esteve presente. Foi até sentido na ausência de amor. Foi claramente sentido todos os dias em que fui usada. A puta das 7 da manhã. 

Teimosa e estupidamente, continuei a tentar penetrar a fortaleza vazia.

29
Jun20

Todas as mulheres que amei.

A manhã acordou com gritos. O desespero a desenhar os contornos do espaço vazio que ela ocupava. Na dança descoordenada de quem não se conhecia e tentava... e tentava.

Gritar era o que fazíamos melhor. Gritar era o que eu fazia melhor. Havia som. Havia alguma coisa, qualquer coisa a fazer sentir-me viva. No meio da loucura em que ela me deixou, gritar era tudo o que sobrava. Nos sons deixava de ouvir todo o silêncio que ela representava.

06
Jun20

Há 5 anos uma morte.

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Há 5 anos uma morte. No tempo que se seguiu pareço não ter alcançado muito. Podiam ter sido 5 dias. 

No que a vida dos outros avançou, na minha apenas as rugas gritam o tempo. Podiam ter sido 5 dias.

Há 5 anos uma morte. Há 5 anos era sábado também.

 

“Within your secrets lies your sickness,” Dr. Talbott had said to me when I talked to him (...)

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