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com a cabeça entre as orelhas

no caminho do minimalismo, procurando a essência.

no caminho do minimalismo, procurando a essência.

com a cabeça entre as orelhas

30
Abr19

Sim, lembro-me perfeitamente...

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Sim, lembro-me perfeitamente do lançamento do primeiro gameboy. Lembro-me de esperar 6 anos até ter o meu - julgo que, actualmente, ninguém espera tanto tempo por nada nem ninguém. Apesar da vontade mantida, lembro-me também de como perdeu parte do encanto algum tempo depois. 

Essa constatação manteve-se ao longo da vida. Estranhamente, cada coisa desejada perdia o encanto ao fim de algum tempo após atingida. Intrigava-me já em miúda; e eu não tinha tudo o que queria, havendo claramente um período de latência grande entre o desejo e a sua eventual concretização.

E assim finalizei o #minsgame: 30 dias, mais de 496 coisas subtraídas à casa. 

De todas, a grande maioria foram dadas. Roupa aos sem abrigo; utensílios de cozinha a quem precisava; os livros lidos e relidos entregues à biblioteca local; consola a miúdos que nunca a teriam tido e cuja mãe mais tarde me disse “Fiquei a vê-los. Não percebo nada daquilo, mas a felicidade deles era tudo.” Ainda vendi 3 coisas no OLX, mas a rapidez com que me queria libertar das coisas não era compatível com processos de regateio e venda. Por outro lado, dar soube sempre melhor.

Fotografei as coisas diariamente; muitas delas não tinham qualquer significado emocional, mas algumas fotografias tiveram como objectivo guardar num caderno as que tinham. Porque, efectivamente, as lembranças estão connosco e não nos objectos.

A subtracção permitiu arrumar a casa; voltar atrás no tempo e endireitar o espaço. Espaço esse que me permitiu ver e usar mais as coisas que ficaram porque, se sobreviveram à subtracção,  foi por terem utilidade ou adicionarem valor à minha existência. 

Por outro lado, o espaço aberto deu-me espaço e tempo para a claridade mental; para parar e reflectir; para não ir atrás da próxima falsa sensação de urgência que qualquer anúncio grita. 

Agora penso e repenso. Não sou minimalista no sentido do Colin Wright cuja mala contém tudo quanto possui, mas sim na intenção. Na escolha ponderada.

E escrevo. Consigo ter uma secretária ampla que me permite a leveza de pensar e escrever, como na altura do lançamento do gameboy.

Por isso escreve, meu amor!, escreve. Pode ser que ao escrever desenhes o mapa do teu regresso.

 

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29
Abr19

Um mês.

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Um mês.

Começou com a minha necessidade de desabafar tudo aquilo que não tinha escape possível devido à “cortina de silêncio” - é tão mais fácil vir espreitar o que é escrito, em vez de dar a cara a uma conversa.

De qualquer forma, grande parte dos problemas de comunicação estão no facto de cada um de nós ouvir só o suficiente para responder. Não há uma escuta activa, mas antes uma escuta defensiva/ofensiva. Há que proteger o forte, o nosso ego, e como tal, ouve-se apenas parte do que é dito enquanto se preparam batalhões de palavras em fileiras de frases prontas a atacar o outro, em nome da auto-preservação. Isso não é diálogo. 

No entretanto, tornou-se o meu ponto de encontro comigo. A minha reflexão diária ou, simplesmente, o meu tempo de catarse. Publicar teve tão somente a intenção de me responsabilizar a manter o hábito. Teve também a intenção de me fazer escrever, ainda que nada concreto em determinados dias.

Depois de ouvir vários podcasts, entre minimalismo, essencialismo ou mudança de hábitos, percebi que parte importante do processo da mudança de hábitos era a persistência; era fazer, o que quer que fosse que se tenta mudar, diariamente. E, também, fazê-lo sem ser de forma exagerada que me levasse a um tratado no primeiro dia, para desistir completamente ao terceiro. 

Ouvindo a entrevista com Greg McKeown, decidi-me a empregar a técnica dos limites possíveis: no mínimo 3 parágrafos por dia, no máximo 5. Agora há dias em que são mais do que 5, mas nunca serão menos de 3. Isso enquanto me fizer sentido e adicione valor à minha vida. Para subtracções chegam as que eu faço intencionalmente à casa.

Um mês. Quanto a ti, não sei. Que hábitos queres mudar? Do que me foi dado a conhecer... nenhum.

 

 

28
Abr19

O céu rasgado de azul...

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O céu rasgado de azul, trespassado por mil mastros, faz-me lembrar o tempo em que chegava aqui nauseada ou verdadeiramente bem disposta, depois de uma manhã de rio; mãos feridas por cabos retesados pelo vento... Os restaurantes dos clubes enchem-se de gente e eu vou passeando por entre bicicletas e trotinetes eléctricas, pensando em ti e em ti. Todos os meus mortos e os meus fantasmas comigo.

De caminho, cruzei-me com aquela que fui há 7 anos, num parque de tonalidades amarelas algures entre a Europa e a Ásia.  A prudência atirada de fresco pela janela, a dar boleia a 3 pessoas que a pediam no passeio.

Parada no semáforo, com a música a preencher o vazio do lugar que deixaste ao lado, a mão de fora da janela a sentir a brisa refrescante deste apressado primeiro dia de Verão, ouvi perguntarem-me se podia dar boleia até ao Mosteiro dos Jerónimos. E porque não? A coisa mais segura, apesar de difícil, foi escolher-te a ti... e onde é que isso me levou? Com as mãos que teria posto no fogo por ti completamente queimadas até aos ossos, porque não? 

Continuo viva. Continuo sem conseguir largar-te a mão, como se em algum universo paralelo estivéssemos assim.

Um dia talvez te consiga perdoar. A ti e a ti.

Todos os meus mortos com todos os meus fantasmas.

27
Abr19

Percorri as fotografias...

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Percorri as fotografias de uma, de outra e de outra viagem. Não sei quais contêm felicidade. Parecem todas forçadas. A boca num esgar retesado em forma de sorriso,  mas com os músculos periorbitários quietos, sossegados, “botulinizados”. 

O que é que foi real? O silêncio é, sem dúvida. Um vácuo palpável.

E o resto? O que foi o resto?

Ainda me custa aceitar que não saiba ver para além da farsa. Que continue a falhar, a um nível básico, o conhecimento do outro.

Quem foste? Quem és?

Se conseguisse ao menos encaixar-te em alguma zona da alma... mas levaste debaixo do braço as respostas e nos teus pés a afastarem-se calaste as perguntas que não cheguei a fazer.

26
Abr19

Não é sem alguma raiva...

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Não é sem alguma raiva que tento mentalizar-me para quinze dias em modo analógico. Nada contra o analógico, antes pelo contrário; espero conseguir distanciar-me de ecrãs e instagrams e afins.

Raiva de ti; que venhas de barriga cheia e olhos do tamanho do mundo enquanto eu fiquei a olhar para os mesmos sítios de sempre, em que a música jamais será igual ainda que a tonalidade não tenha mudado.

Hoje nada neutraliza a azia. Pudesse eu vomitar a vida em ti. Procuro contactar com o que está debaixo desta superfície rancorosa, mas tudo o que vejo é de um verde bilioso. Pudesse eu estatelar-me para te quebrar no impacto. 

Deixo-te aqui. Vou por ali. Hei-de chegar tranquila, dentro de uns dias, ao tempo antes de ti.

 

“O sentimento está à espreita durante o intervalo de tempo que separa o desejo da sua satisfação.” - Admirável Mundo Novo.

25
Abr19

Achei que ias ser...

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Achei que ias ser o meu tema de hoje, mas uma coisa mais importante tomou o teu lugar: a epidemia da solidão. 

Na realidade, se pensar a sério no assunto, foi isso que me deixaste. A solidão. O não ter sido vista ou ouvida. Deixaste-me frente a frente com a minha insuficiência como ser humano merecedor de reconhecimento. É por mim que choro nas noites. Pelo eu rejeitado. Pelo eu ignorado. Pelo eu deixado a gritar mil lágrimas silenciadas. É pelo eu que acreditou que alguém, em algum lugar, me via. É pelo eu que julgou ver-te.

Mas as pessoas a quem é necessário explicar são aquelas que não irão compreender. Com essa epifania deixaste-me a desejar, infelizmente, o dia em que serás um rosto que eu não vejo, não antevejo, nem sonho. Ser-me-ás indiferente.

 

Matt d’Avella: The Loneliness Epidemic.

 

24
Abr19

O dia passou a correr...

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O dia passou a correr, mas sem sensação de urgência.

Nada a assinalar de extraordinário, o que é válido nos dois sentidos: positivo e negativo.

Foi um dia com as mesmas horas, os mesmos passos, os mesmos silêncios e, ainda assim, acabou com uma gargalhada sonora porque há coisas simples que fazem sorrir.

 

A não esquecer, no entanto:

The Tim Ferriss Show Podcast - episódio com o meu autor favorito - Neil Gaiman, a relembrar o livro Good Omens e a série a estrear em breve; a relembrar o falecido Terry Pratchett. Acima de tudo, a relembrar o mundo da fantasia e todos os romances e contos que continuaram a alimentar o mundo fantástico que o meu pai criou no meu imaginário.

• A leitura do prefácio de Aldous Huxley no livro, do próprio, Admirável Mundo Novo. 

22
Abr19

Não sei que idade teria...

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Não sei que idade teria quando me sentei no meio da sala, de pernas cruzadas, olhos fechados e testa franzida em profunda concentração. O meu pai acabara de me confessar que sabia levitar, juntamente com o segredo para o conseguir fazer.

Parecia simples. Bastava que me conseguisse concentrar em cada pequena parte do meu corpo até que o deixasse de sentir. Começava sempre pelo dedo grande de um pé e ia seguindo, acabando por nunca conseguir chegar a uma perna completa...  

Frustrada, acabei por desistir das tentativas de levitação e da minha futura carreira circense.

Umas décadas mais tarde é na meditação que encontro o meu retorno a casa. Por vezes, chego mesmo a sentir que estou para além do meu corpo sentado, de olhos fechados. Nessas alturas sinto que consigo quebrar as correntes do atarefado mundo moderno e levitar em alguma paz.

 

O que também tem ajudado no processo de desconexão (ou conexão ao que interessa):

• Apaguei muitas apps instaladas e sem utilidade prática para além da distracção permanente. 

• Retirei as notificações de praticamente todas as apps que sobreviveram. Apenas tenho notificações para mensagens, chamadas e despertador. Sem a presença constante de apitos e símbolos vermelhos com números a gritarem a quantidade de coisas que estou a deixar passar, tenho tempo para o essencial e não sinto que esteja a perder nada de importante. Raramente me ocorre ver a caixa de entrada do email; a quem o dou, aviso logo que não serve para coisas urgentes porque é visto 2 ou 3 vezes por dia.

• No tempo de ecrã reduzi o limite de tempo de outras apps, nomeadamente a da rede social que sobrou,  para 15 minutos/dia; se quiser ver mais do que isso, tenho que seleccionar outras opções. Com o gesto automático impedido, há tempo para pensar se preciso mesmo de olhar para as fotografias da vida curada de outra pessoa. Por outro lado, quando o faço, é com (alguma) intenção, seja ela a de me distrair ou outra.

• Quando sinto que o impulso de ligar o telefone se mantém, passo o ecrã a preto e branco. É impressionante como deixa de ser apelativo. 

 

21
Abr19

A manhã de Páscoa...

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A manhã de Páscoa começou com a notícia dos atentados no Sri Lanka. Lembro-me da bofetada de calor opressivo ao sair do ar condicionado do aeroporto para ir ao encontro do nosso guia. Lembro-me da verdura, do silêncio, da comida sempre picante mesmo quando me diziam não ser, da miríade de animais (assustadores) de pequeno porte que nos arrancavam gritos histéricos à entrada nos quartos...

Lembro-me ainda de olhar o horizonte, para além daquele mar quente, de um azul profundo, e imaginar com terror a imensa vaga do tsunami que varreu toda aquela zona no dia seguinte ao Natal de 2004.

Hoje, tudo isso eram feridos e mortos, raiva e medo, desespero e tristeza. 

Hoje é todo o futuro que temos. Não sabendo como, preferimos ignorar a finitude, ainda que seja a única certeza possível. Não sabendo quando, preferimos ignorar que, ainda que hoje sejam diferentes, as nossas circunstâncias serão as mesmas um dia mais tarde e que isso, por si só, nos deveria forçar a viver a melhor vida possível a cada instante.

Continuo sem conseguir perceber porque não acordamos todos de vez para o agora, para a consciência transcendente da unidade que somos, de forma a termos uma vida com sentido, focada na essência do bem que existe em cada um de nós.

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