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com a cabeça entre as orelhas

com a cabeça entre as orelhas

17
Jul19

Houve uma época...

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Houve uma época em que via televisão.

A essa época seguiu-se uma morte. Não o instante, que esse é rápido, mas o processo de morrer nem sempre é brusco. Um dia aqui; um dia não. 

Nesse processo deixei de ver o telejornal. Parecia-me sinistro, ainda que extraordinário, que num planeta tão grande só conseguissem noticiar catástrofe, tristeza, miséria. Hoje, as notícias que leio são as que escolho ler. Não sou invadida à hora do jantar pela angústia de tudo o que não posso mudar no mundo.

Em determinada altura vi programas que não tinham outro intuito senão o de me manter num estado de estupor, passando o tempo sem analisar a vida. Numa dessas tardes terei ouvido a Oprah Winfrey falar num “diário da gratidão”.

Desde essa altura que o faço, falhando o registo num ou noutro dia, mas não o hábito porque esse foi adquirido e tornou-se parte de mim. Consigo sempre encontrar três coisas pelas quais estar agradecida. Mesmo nos dias em que não sei se o que me molha a cara é a água do duche, da chuva ou as lágrimas. Mesmo nas noites de insónia, quando sei que são as lágrimas o que tenta forçar caminho contra as pálpebras teimosamente cerradas.

A presente época é de mudança de hábitos, porque a definição de loucura é repetir a mesma coisa variadíssimas vezes esperando um resultado diferente.

Ver menos televisão foi uma das mudanças. Com mais séries à disposição que horas num dia, optei pela leitura. Pela meditação. E foi assim que hoje relembrei a Oprah Winfrey, do outro lado do mundo, a iniciar-me no diário da gratidão.

 

Let not your mind run on what you lack as much as on what you have already - Marcus Aurelius

 

 

14
Jul19

É mais fácil...

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É mais fácil aceitar que x deixou y por 2x. É mais fácil escolher lados. É mais fácil tomar partidos.

Mas ninguém esteve lá. Ninguém esteve lá quando x, durante 4 anos, teve que sair de casa mais cedo para não se cruzar com a empregada doméstica; ninguém esteve lá daquela vez que x teve que se despachar à pressa e sair pelas escadas para não se cruzar com z. Ninguém esteve lá quando y e x decidiram tentar novamente, sabendo que seriam necessárias mudanças. Mudanças que existiram, na fórmula de w, mas que se ficaram por aí. Ninguém esteve lá quando x teve como resposta de y “não me faças escolher...”, guardada nas reticências a certeza de que a escolha não recairia em x. Ninguém lá esteve.

Mesmo quem lá esteve descarta, com um sacudir de ombros, tudo isso como estando de acordo com o eixo do seu tempo. Não creio sequer que tenha compreendido - ainda hoje - a dor profunda, as cicatrizes do passado que esses “nadas” abriram. Nenhum reconhecimento genuíno pela dor provocada.

A fórmula matemática de 2 vidas em 1 relação é bem mais complexa. É mais fácil, portanto, compreender esta simples “verdade”: x deixou y por 2x. E isso faz com que x não queira fazer parte desse conjunto.

Quando b entrou na equação e prometeu, sem cumprir, o que y nunca prometeu, houve um sorriso escarninho de vitória. Sem que se tenha detido, por um instante, na mágoa que esse sorriso provocou. Na conclusão: - Quem quer que encontres, o que quer que te prometam, x, nunca será real ou completo. E isso magoa pela constatação em si e pela ausência de consideração pela dor inerente a essa cruel verdade.

 

I was already missing before the night I left

Just me and my shadow and all of my regrets

12
Jul19

Que nunca me esqueça...

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Que nunca me esqueça do grande auditório numa manhã de verão com cara de outono. 

A patética na estante do piano, professor e aluna discutindo a divisão do tempo, as articulações das frases, quando entra uma cara de outros tempos, de violino na mão, a surpresa pelo auditório com gente.

As hesitações e o silêncio entre as partes, interrompidos por:

- Preciso de um lá!

- Um lá!, respondi tocando... E assim soou; e assim seguiu, violino na mão com a corda afinada. 

Possa a vida ter sempre a leveza de uma nota.

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