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com a cabeça entre as orelhas

com a cabeça entre as orelhas

12
Jun19

Não acho que um instante...

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Não acho que um instante nos possa definir enquanto pessoas. Talvez enquanto pessoa naquele preciso instante. 

Talvez não tenhas sido correcta em tantos desses instantes comigo, mas não acho que nada disso te defina hoje ou amanhã. Como no livro, o passado é um país estrangeiro.

Vi tanta miséria hoje. Que podia ser eu. Que podias ser tu. Somos nós nas nossas circunstâncias. 

Pela primeira vez consigo dar um passo no sentido da libertação.

 

“The past may or may not be a foreign country. It may morph or lie still, but its capital is always Regret (...)” - André Aciman, Enigma Variations

11
Jun19

A tranquilidade da superfície...

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A tranquilidade da superfície oculta a dificuldade da caminhada até aqui. Essa sabemo-la nós, que cá chegámos. Quem esteve ao lado e incentivou uma subida após outra; outra descida e mais uma. Num desfiladeiro que esconde dentro de si uma biodiversidade inimaginável. 

No repouso transitório da hora de almoço esqueço-me por instantes das dores que me impedem os passos. É quando me levanto que as torno a sentir com a mesma intensidade. 

É assim que me dóis quando penso em ti e me dou conta que não o fazia há horas.

10
Jun19

Acabei o livro.

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Acabei o livro (Enigma Variations). Deve estar muito bem escrito porque senti toda a angústia. Aquela que já é minha também. Não foi fácil de digerir, ainda que o fim tenha sido um pouco anti-climático.

Satisfaz-me, contudo, ter percebido o instante a partir do qual nada, nunca mais, seria igual. 

De costas para a cidade, olhar perdido nas águas do Tejo, sabendo que aquele instante seria o último de paz, sabendo que o segundo imediatamente a seguir a levantar-me do banco deixava sentada a alma e arrastava o corpo por uma cidade vazia. 

Será isso o vinho da vida? A consciência exacta de cada instante pelo instante que é? Tenho tantas saudades daqueles minutos, ainda sentada. Antes de tudo.

03
Jun19

Chorei a manhã toda...

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Chorei a manhã toda pelos corredores do aeroporto de Lisboa. A voz maternal repetia do outro lado da ligação “Estás livre, livre, livre!”. Não se perdeu em mim a ironia da expressão.

Reparei no olhar atento de uma senhora ao passar por mim; atento no meu inundado de lágrimas. Que história terá imaginado para mim? Certamente menos patética que a real.

Adormeci com Beethoven nos ouvidos e o livro esquecido no colo. Não abri os olhos através da turbulência, mas apenas a tempo de ver a sombra que tinha deixado atrás tornar a aproximar-se de mim... esperando que mais leve.

 

Nem de propósito deparei-me com esta entrada num outro blog.

02
Jun19

Há 20 anos saí do palco...

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Há 20 anos saí do palco depois de falhar, por três vezes, o início de uma peça. Deveria ter sido importante o suficiente para fixar a peça, o compositor, alguma coisa. Tudo o que retive foi a expressão exasperada da minha professora.

Há uma semana seguia eu o caminho da aceitação da tua saída de cena sem terminar a deixa. Como se adivinhasses no ar a tranquilidade do que não podia mudar, voltaste ao palco, mas já ninguém estava a assistir. 

E, novamente, uns dias mais tarde, vieste com as palavras que deixaste calar quando decidiste que o silêncio era a música que se impunha na tua vida e fizeste de mim surda na que não tinha escolhido.

Hoje estou perdida nas Variações (Diabelli) do teu tema, à espera que a certa me escolha. Aproveito os últimos instantes da vida, calma, como ela era até há uma semana atrás. 

29
Mai19

Nova Iorque.

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Nova Iorque. 

Sinto uma nostalgia a preto e branco do sítio que não adoro. 

São instantes fotográficos à deriva nas tonalidades esbatidas de uma Polaroid.

Nova Iorque.

A cidade que não adoro. 

Onde não sinto vontade de voltar, ainda que talvez encontrasse uma parte de mim, à chuva, na esquina da Broadway com a 43ª rua.

 

Your memory near
Laced with the pain
I needed love but it's never the same
27
Mai19

Foi quando os dias...

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Foi quando os dias se espraiaram em direcção ao Verão que chegaste, disposta a entrar na maré que me levava.

Foi quando quiseste. Porque pudeste.  

Pudesse eu voltar costas às costas que me mostraste. 

 

Darling, be careful with me
'cause there's part of me that you don't know
Darling, be gentle with me
when you tell me that you need to go
And if you should miss me, don't call me
don't tell me, just leave me alone
Because you cut me wide open
left teardrops on all my white roses

17
Mai19

Às vezes procuro-te...

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Às vezes procuro-te... nos sinais que o não são. O trivial ganha momentaneamente um sentido que nunca teve para, instantes mais tardes, voltar a ser o que sempre foi. Despido de qualquer pedaço de ti.

Procuro-te em coisas, em sons, em lugares. Procuro-te e volto a sossegar a alma, porque não és, não estás... nem serás.

Gostaria de avançar daqueles que foram os meus erros. Estender uma mão que te amparasse nos teus. Mas ainda não tenho os pés firmes em terra. Não posso hesitar. Ainda não.

 

And what would it mean to say
That 'I loved you in my fashion'?

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