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com a cabeça entre as orelhas

com a cabeça entre as orelhas

04
Jan20

Hoje é um dia que o meu pai não viu.

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Hoje é um dia que o meu pai não viu. Não viu este dia nos últimos 13 anos. Vou assinalando mentalmente os anos que ficaram por fazer, as vidas que ficaram por viver.

Hoje, no dia que seria de festa, a festa aconteceu. Na possibilidade, na mudança. 

Hoje perguntaram-me quantas pessoas morreram às minhas mãos. Creio que, às minhas mãos literalmente, apenas uma. O pai que sobrou do pai quando o pai desapareceu. O meu avô. 

Nada é o que era como quando todos estavam vivos e se festejavam aniversários. Mas a vida acontece e, no processo, está a felicidade. Não mais à frente, no talvez imaginado; não lá atrás, numa remota lembrança do que não é mais. A felicidade acontece agora, quando conseguimos a gratidão daquilo que nos é oferecido, ainda que nem sempre pedido ou desejado.

 

 

27
Jun19

Estou aqui.

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Estou aqui. Entre músicas. Entre compassos. Entre pausas.

Entre mim e eu. Entre tu e ela. Entre ontem e hoje.

Entre tudo o que não sei o que será e tudo o que sei que dói.

Entre tudo o que te magoei e tudo o me magoaram depois.

Entre o perfeito equilíbrio do universo numa pessoa em um ponto no espaço e no tempo.

Entre os copos que não bebo na bebedeira sóbria da vida.

Estou aqui.

 

That my feet don’t dance like they did with you.

18
Jun19

Não li uma única linha...

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Não li uma única linha do livro Meditations durante as férias.

Ia preparada para lidar com a minha solidão e enfrentar os meus demónios, mas o que encontrei foram gargalhadas sinceras às refeições e apoio genuíno nos intervalos. 

O mais que mantive diariamente foram as minhas meditações, a eterna lista de gratidão e as reflexões escritas (não as que aqui deixo).

Marco Aurélio ficou de parte até hoje, de regresso à assépsia da (suposta) civilização. E, de repente, fez-me sentido a insistência de Séneca em relação à filosofia; porque, ao ler, senti-me num outro recanto de mim, tranquilo, com sabor a lar.

Uma passagem marcou-me: “Death is a rest from the recalcitrance of sense, and from the impulses that pull us around like a puppet, and from the vagaries of discursive thought, and from our service to the flesh.”

Death is a rest. Death is a rest.

Voltei àquele quarto igualmente asséptico, ao olhar tranquilo do meu pai ao dizer-me “Tu não chores que eu vou só descansar”. E assim foi.

10
Jun19

Acabei o livro.

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Acabei o livro (Enigma Variations). Deve estar muito bem escrito porque senti toda a angústia. Aquela que já é minha também. Não foi fácil de digerir, ainda que o fim tenha sido um pouco anti-climático.

Satisfaz-me, contudo, ter percebido o instante a partir do qual nada, nunca mais, seria igual. 

De costas para a cidade, olhar perdido nas águas do Tejo, sabendo que aquele instante seria o último de paz, sabendo que o segundo imediatamente a seguir a levantar-me do banco deixava sentada a alma e arrastava o corpo por uma cidade vazia. 

Será isso o vinho da vida? A consciência exacta de cada instante pelo instante que é? Tenho tantas saudades daqueles minutos, ainda sentada. Antes de tudo.

07
Jun19

Acordei com a sensação...

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Acordei com a sensação de ter vestido um sonho que não me lembro de ter sonhado. Não o consegui largar ao longo do dia.

Como roupa molhada, colada à pele, a tolher os movimentos na humidade absorvida sem a sensação de frescura.

A mesma frase sentida como tão verdadeira quanto os meus ossos doridos: sou pior que 25 anos de solidão.

Preciso de me despir de ti. De que terei medo? De ser livre?

Na despedida do dia, com o sol a baixar no horizonte, o olhar desta criança devolveu-me à vida.

 

'Cause how it looks right now to me
Is you are scared of the danger

02
Jun19

Há 20 anos saí do palco...

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Há 20 anos saí do palco depois de falhar, por três vezes, o início de uma peça. Deveria ter sido importante o suficiente para fixar a peça, o compositor, alguma coisa. Tudo o que retive foi a expressão exasperada da minha professora.

Há uma semana seguia eu o caminho da aceitação da tua saída de cena sem terminar a deixa. Como se adivinhasses no ar a tranquilidade do que não podia mudar, voltaste ao palco, mas já ninguém estava a assistir. 

E, novamente, uns dias mais tarde, vieste com as palavras que deixaste calar quando decidiste que o silêncio era a música que se impunha na tua vida e fizeste de mim surda na que não tinha escolhido.

Hoje estou perdida nas Variações (Diabelli) do teu tema, à espera que a certa me escolha. Aproveito os últimos instantes da vida, calma, como ela era até há uma semana atrás. 

17
Mai19

Às vezes procuro-te...

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Às vezes procuro-te... nos sinais que o não são. O trivial ganha momentaneamente um sentido que nunca teve para, instantes mais tardes, voltar a ser o que sempre foi. Despido de qualquer pedaço de ti.

Procuro-te em coisas, em sons, em lugares. Procuro-te e volto a sossegar a alma, porque não és, não estás... nem serás.

Gostaria de avançar daqueles que foram os meus erros. Estender uma mão que te amparasse nos teus. Mas ainda não tenho os pés firmes em terra. Não posso hesitar. Ainda não.

 

And what would it mean to say
That 'I loved you in my fashion'?

14
Mai19

Diferentes tamanhos, diferentes cores.

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Diferentes tamanhos, diferentes cores. Sem linha condutora, do ponto de vista decorativo. Assim vejo as lombadas dos livros que guardo.

E, de repente, estou noutro sítio. Onde as tintas se lavam; as unhas se partem e os cabelos crescem revoltos. Lembro-me de como sempre gostei mais de ti despida de tudo isso. Quando, por instantes, era tangível. Tão perto de ser real.

Mas o dia interrompe os sonhos e sempre me foste arrancada às mãos como eu arranco a confusão de dentro da alma, rasgando o papel com a caneta...  e todos os dias me sinto arrancada à essência pelas tintas e por todos os borrões do mundo. 

Volto a estar sentada ao piano, a olhar ao fundo os livros que guardo. Diferentes cores, diferentes tamanhos. 

Percebo agora que os livros perfeitos que admirava na tua biblioteca eram lombadas por ler, ocas ou cheias de coisa nenhuma.

12
Mai19

Felizmente moída.

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Felizmente moída. Calorosamente quebrada.

Apesar de querer guardar em mim o diálogo, o sorriso e as lágrimas, escrever permite fugir dos erros inerentes à memória e ao tempo.

Num outro eu, num outro tu, olhámo-nos pelo retrovisor das nossas almas e percorremos de mãos dadas as alegrias e mágoas que nos fizeram chegar aqui. 

Aqui será sempre um fim de dia com sabor a mar, sob a protecção de um Sol ensonado, descendo no horizonte, na certeza de uma dança desengonçada numa rua vazia.

Sabendo que serei sempre louca aos teus olhos, deixo-te a dica de Aristóteles:

No great intellect has been without a touch of madness.

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