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com a cabeça entre as orelhas

com a cabeça entre as orelhas

16
Fev20

Todas as mulheres que amei.

Recostei-me no lugar habitual. O azul do céu do fim de dia emoldurava o verde das copas das árvores. Da zona do palco conhecido, vazio, chegavam alguns sons repetidos, em jeito de aquecimento.

Trouxeste contigo outra tonalidade de azul - densa; concreta. E essa outra moldura abraçava a pele dos ombros que eu despi lentamente ao som de mil pássaros em vôo.

Há tantos anos atrás a música havia parado. Naquele instante, com a tua chegada, reiniciaste o compasso.

01
Ago19

Born Weird.

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“Until you realize that coincidences don’t exist, your life will be filled with them.” - Andrew Kaufman, in Born Weird

Hoje encontrei-me na descida lenta a um dos anéis do inferno que é passear pelo feed do instagram, comparando as vidas curadas de ilustres desconhecidos ao caos abraçado da minha. Na perfeição reluzente dos seus sorrisos pensados ponderava que não poderia ser tudo assim - ou será que pode?

Coincidentemente, tinha à espera a newsletter de Seth Godin na caixa de entrada do mail. Talvez seja possível viver em abundância; é preciso é saber orientar o foco.

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17
Jul19

Houve uma época...

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Houve uma época em que via televisão.

A essa época seguiu-se uma morte. Não o instante, que esse é rápido, mas o processo de morrer nem sempre é brusco. Um dia aqui; um dia não. 

Nesse processo deixei de ver o telejornal. Parecia-me sinistro, ainda que extraordinário, que num planeta tão grande só conseguissem noticiar catástrofe, tristeza, miséria. Hoje, as notícias que leio são as que escolho ler. Não sou invadida à hora do jantar pela angústia de tudo o que não posso mudar no mundo.

Em determinada altura vi programas que não tinham outro intuito senão o de me manter num estado de estupor, passando o tempo sem analisar a vida. Numa dessas tardes terei ouvido a Oprah Winfrey falar num “diário da gratidão”.

Desde essa altura que o faço, falhando o registo num ou noutro dia, mas não o hábito porque esse foi adquirido e tornou-se parte de mim. Consigo sempre encontrar três coisas pelas quais estar agradecida. Mesmo nos dias em que não sei se o que me molha a cara é a água do duche, da chuva ou as lágrimas. Mesmo nas noites de insónia, quando sei que são as lágrimas o que tenta forçar caminho contra as pálpebras teimosamente cerradas.

A presente época é de mudança de hábitos, porque a definição de loucura é repetir a mesma coisa variadíssimas vezes esperando um resultado diferente.

Ver menos televisão foi uma das mudanças. Com mais séries à disposição que horas num dia, optei pela leitura. Pela meditação. E foi assim que hoje relembrei a Oprah Winfrey, do outro lado do mundo, a iniciar-me no diário da gratidão.

 

Let not your mind run on what you lack as much as on what you have already - Marcus Aurelius

 

 

12
Jul19

Que nunca me esqueça...

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Que nunca me esqueça do grande auditório numa manhã de verão com cara de outono. 

A patética na estante do piano, professor e aluna discutindo a divisão do tempo, as articulações das frases, quando entra uma cara de outros tempos, de violino na mão, a surpresa pelo auditório com gente.

As hesitações e o silêncio entre as partes, interrompidos por:

- Preciso de um lá!

- Um lá!, respondi tocando... E assim soou; e assim seguiu, violino na mão com a corda afinada. 

Possa a vida ter sempre a leveza de uma nota.

09
Jul19

De cada vez que alguém...

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De cada vez que alguém, com ar vencedor, anuncia ter enganado a morte em determinada altura, eu pergunto-me como é possível essa sensação. Não a de ter adiado o inevitável, mas a de invencibilidade. Só me sinto invencível quando decido o que fazer com cada um dos meus instantes, agora. Precisamente por reconhecer, reflectir e aceitar a constante mudança de estados até que o estado seja nenhum. 

Saber que a morte é certa e reflectir sobre o que isso diz da vida é uma capacidade única do ser humano, racional. Ainda assim, tantas vezes se prefere o pacto de silêncio como se, ignorando a paragem final, ela passasse por nós como todas as outras que se vêem pela janela de um combóio que não se detém.

Reconhecer - em consciência - a existência de um fim, ainda que não se saiba quando, dá-nos a capacidade de viver uma vida melhor. Mas basta um olhar em volta e encontram-se objectivos: o que alcançar; como alcançar; quando alcançar. Com a importância de algo capaz de permitir o acesso à vida eterna, uma vez atingido. Raramente se ouvem as perguntas: “porquê?”, “com que sentido?”, “para que fim?”.

Como o rei-filosófo de Platão advoga, nada que seja proveniente de uma natureza universal poderá ser mau na sua essência, mas apenas nos nossos julgamentos sobre aquela. A morte é uma dessas partes do todo. Porque não permitir o diálogo sobre ela? De forma a permitir uma saída de cena digna, sem (com menos?) arrependimentos.

 

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