A luz desliza pela curva de um sorriso.

A luz desliza pela curva de um sorriso.
Entre uns lábios e outros, em constante desacordo.
Não sabes já quem te desafia ou te guia. Se a noite, se o dia, na vida que era do outro.
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A luz desliza pela curva de um sorriso.
Entre uns lábios e outros, em constante desacordo.
Não sabes já quem te desafia ou te guia. Se a noite, se o dia, na vida que era do outro.

Amanhã.
Sinto o caminho a desviar-se daquele que conheço, em direcção a pessoas sentadas no chão, com cartões escritos a agradecer sorrisos de estranhos. E se assim for? Ficarias tu? Ficaria eu?
Poderia ser qualquer um de nós... e, para já, só me sinto perdida. Continuo a querer o teu sorriso familiar em mim.
Lentamente os passos afundam na areia.
Devagar, vou sabendo o que é estar sem ser. Estar, apenas. Aqui. Agora. Enquanto quiser.
Aceito a queda. Aceito a promessa da tua teia.

O tempo ou a noção do mesmo.
Hoje é o dia mais longo do ano. O mais longo sozinha. Mas, dado tempo suficiente, não há nada que não seja um mero piscar de olhos na eternidade, que o tempo tudo apaga, até quem poderia vir a ter memória dele.
Não sou de lembranças profundas ou distantes, mas assumo alguma ansiedade perante a ideia deste tempo todo não ser tempo nenhum. A inexorabilidade de todas as mudanças e esquecimentos. De ser tudo normal, tudo banal, tudo mortal.
E eu onde? E eu quando? Em que função? Para que fim? “What brings no benefit to the hive brings none to the bee”, pode ler-se no livro sexto das meditações. A abelha, porém, não sabe que existe tempo a pensar ou a perder.
Continuo a não acreditar que fingirmo-nos irracionais resolva a ansiedade que a realidade da existência humana pode acarretar para alguns. Partilhando mais talvez fosse menos tempo o tempo do desespero.
How swiftly unending time will cover all things, and how much it has covered already! - Marcus Aurelius, Meditations

Estou hoje fragmentada. Dispersa em sentidos vários sem direcção evidente. A submersão iminente no caos fundido como alumínio.
Não sei ao certo nomear as minhas amarras, mas sinto-as próximas, a infiltrarem-se, apagando aos poucos o hoje feito ontem.
Ah, África! O quanto me purgas a alma. Pudesse eu voltar a estar aqui e acolá ao mesmo tempo.
Resta-me a consciencialização de todas estas emoções, tão inúteis quanto passageiras, trazendo-me de volta ao que é, agora.

Não acho que um instante nos possa definir enquanto pessoas. Talvez enquanto pessoa naquele preciso instante.
Talvez não tenhas sido correcta em tantos desses instantes comigo, mas não acho que nada disso te defina hoje ou amanhã. Como no livro, o passado é um país estrangeiro.
Vi tanta miséria hoje. Que podia ser eu. Que podias ser tu. Somos nós nas nossas circunstâncias.
Pela primeira vez consigo dar um passo no sentido da libertação.
“The past may or may not be a foreign country. It may morph or lie still, but its capital is always Regret (...)” - André Aciman, Enigma Variations

Um nó cego.
Quando não sei o que fazer-lhe, passo à volta.
Através dos trilhos enlameados e enrolados em razões enraizadas no tempo, eu levanto-me e sigo.

Acordei com a sensação de ter vestido um sonho que não me lembro de ter sonhado. Não o consegui largar ao longo do dia.
Como roupa molhada, colada à pele, a tolher os movimentos na humidade absorvida sem a sensação de frescura.
A mesma frase sentida como tão verdadeira quanto os meus ossos doridos: sou pior que 25 anos de solidão.
Preciso de me despir de ti. De que terei medo? De ser livre?
Na despedida do dia, com o sol a baixar no horizonte, o olhar desta criança devolveu-me à vida.
'Cause how it looks right now to me
Is you are scared of the danger

Numa pequena sala, que vim a considerar acolhedora, perguntaram-me há anos o que era a bondade.
A minha resposta foi um silêncio embaraçado.
O que é a bondade?
Na altura julguei que seria dizer “sim” a tudo e a todos, mas quando parti desse pressuposto para a acção, dei-me conta de estar longe de me sentir bondosa. Dizer a tudo e a todos que sim deixou-me exausta, impaciente, intolerante, irritável e irritante...
Na casa da minha infância, antes das suas paredes reflectirem mais ecos, o meu pai pediu-me que fosse boa profissional e uma profissional boa.
O que é a bondade?
Continuo a lutar com o conceito. Dou-lhe a mão de um lado, levanto-lhe o braço do outro, inspecciono as pregas da roupa que veste e continuo pouco certa.
O que é a bondade?
O mais próximo que consigo é ser mais coerente com os meus valores; é treinar a consciência que me permite aceitar o outro como meu semelhante. Despir-me dos meus juízos e compreender que, ainda que não me faça sentido, alguma coisa o preocupa do outro lado e tentar ouvir; estar verdadeiramente presente no presente.
The monster in my head is ruthless.

Gosto do silêncio. Encontrei-o quando reduzi a vida.
Consigo estar, ler e pensar. Conseguiria ser se a angústia não aparecesse, ao virar da página, para me envolver com o seu abraço.
A angústia em relação à (ausência) de sentido, de valor. A angústia em relação ao vazio. À morte que me levou a voz e o toque de quem me desenhou a vida.
A finitude da vida deveria ser a sua força motriz. Mas quem serei eu quando não for o que conheço?
Foi simples libertar o corpo dos bens materiais supérfluos. Foi simples encontrar este silêncio. Mas como se liberta a mente, a consciência, a alma, quando o corpo é a mais pesada das âncoras?
Fecho o livro e fujo para o som da música.
“(...) what it means to die, and that if one considers death in isolation (...), one will no longer consider it to be anything other than a process of nature, and if somebody is frightened of a process of nature, he is no more than a child” - Marcus Aurelius, Meditations