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com a cabeça entre as orelhas

com a cabeça entre as orelhas

28
Mai19

Como escreveu Álvaro de Campos

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Como escreveu Álvaro de Campos:

“Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. (....)”

Estou hoje cansada. Cansada do mundo ou apenas de mim. 

Em Maio retomei o registo dos meus motivos de gratidão, em conjunto com o início de um diário em papel traçado a caneta.

Estou hoje desencantada. Desencantada com o mundo ou apenas comigo.

É em dias como o de hoje que sinto maior necessidade de procurar activamente os motivos de gratidão na minha vida. É em dias como este que encontro mais do que os três que me propus registar.

Porque, no fim de tudo, há maior infinidade no bom.

 

“You should not be disgusted, or lose heart, or give up if you are not wholly successful in accomplishing every action according to correct principles, but when you are thwarted, return to the struggle, and be well contented if for the most part your actions are worthier of human nature.” - Marcus Aurelius, Meditations.

24
Mai19

Numa pequena sala...

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Numa pequena sala, que vim a considerar acolhedora, perguntaram-me há anos o que era a bondade. 

A minha resposta foi um silêncio embaraçado.

O que é a bondade?

Na altura julguei que seria dizer “sim” a tudo e a todos, mas quando parti desse pressuposto para a acção, dei-me conta de estar longe de me sentir bondosa. Dizer a tudo e a todos que sim deixou-me exausta, impaciente, intolerante, irritável e irritante... 

Na casa da minha infância, antes das suas paredes reflectirem mais ecos, o meu pai pediu-me que fosse boa profissional e uma profissional boa.

O que é a bondade?

Continuo a lutar com o conceito. Dou-lhe a mão de um lado, levanto-lhe o braço do outro, inspecciono as pregas da roupa que veste e continuo pouco certa.

O que é a bondade?

O mais próximo que consigo é ser mais coerente com os meus valores; é treinar a consciência que me permite aceitar o outro como meu semelhante. Despir-me dos meus juízos e compreender que, ainda que não me faça sentido, alguma coisa o preocupa do outro lado e tentar ouvir; estar verdadeiramente presente no presente.

 

 

The monster in my head is ruthless.

 

 

23
Mai19

Persigo há semanas as ideias...

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Persigo há semanas as ideias que julgo pensar sem que consiga, de facto, condensá-las em frases com nexo. Fico sempre aquém. Estou quase a vê-las; quase lhes oiço a harmonia, mas tornam a evadir-se de onde nunca chegaram a ter forma ou cor.

Hoje será confuso, mas hoje terá que servir. 

A primeira vez que me senti em estado de consciência foi na 2ª circular, a caminho de um emprego que odiava, a ouvir a abertura do Sonho de uma Noite de Verão de Mendelssohn. Nas próximas horas estaria provável e certamente a viver contra a minha noção de verdade, mas naquele instante, o crescente das cordas, metais e percussão era tudo. Era aquilo. Naquele instante. Ali. 

A segunda vez que me senti em consciência foi num duche, quando consegui aperceber-me de cada milímetro de pele em que as gotas de água quente tocavam. Era aquilo. Naquele instante. Ali.

E depois a vida meteu-se no caminho e perdi o fio condutor, enquanto tecia com ele considerações sobre nada que pudesse controlar.

Na minha viagem em busca daquele instante em que existir bastava, encontrei filosofia e mindfulness.

A tentativa confusa de síntese:

As minhas emoções são consequência dos meus pensamentos sobre as situações actuais; não são emoções de forma absoluta, ou seja, se isoladas do contexto do julgamento inicial. Alterando este, no centro racional do meu ser, talvez consiga alterar as emoções. Mas será necessário alterá-las? Ou bastará apenas reconhecer-lhes a existência, como ao crescente das cordas, metais e percussão em Mendelssohn ou às gotas de água quente que beijam a pele, e aceitá-las como entidades que surgem e, dado o tempo necessário, desaparecem sem que, em nada, alterem a essência da minha consciência?

O sentido da vida faz-me sentido se for concordante com os meus valores; com a virtude existente em cada ser humano como parte integrante de um universo. A felicidade encontra-se nesses instantes vários, episódicos, de consciência do que é, mais ainda se as acções estiverem em concordância com a nossa virtude. 

O treino desta consciencialização permite reproduzir esses vários instantes, ao longo do tempo, ao longo da vida, de modo a serem cada vez mais frequentes.

Hoje é confuso, mas por hoje serve. E, por favor, não me tragam Descartes para a equação, que essa variável para mim (ainda) é incógnita.

 

“(...) each of us lives only in the present, this fleeting moment of time, and that the rest of one’s life has already been lived or lies in an unknowable future. The space of each person’s existence is thus a little thing (...)” - Marcus Aurelius, Meditations.

 

 

19
Mai19

Gosto do silêncio.

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Gosto do silêncio. Encontrei-o quando reduzi a vida.

Consigo estar, ler e pensar. Conseguiria ser se a angústia não aparecesse, ao virar da página, para me envolver com o seu abraço. 

A angústia em relação à (ausência) de sentido, de valor. A angústia em relação ao vazio. À morte que me levou a voz e o toque de quem me desenhou a vida.

A finitude da vida deveria ser a sua força motriz. Mas quem serei eu quando não for o que conheço?

Foi simples libertar o corpo dos bens materiais supérfluos. Foi simples encontrar este silêncio. Mas como se liberta a mente, a consciência, a alma, quando o corpo é a mais pesada das âncoras? 

Fecho o livro e fujo para o som da música. 

 

“(...) what it means to die, and that if one considers death in isolation (...), one will no longer consider it to be anything other than a process of nature, and if somebody is frightened of a process of nature, he is no more than a child” - Marcus Aurelius, Meditations

16
Mai19

Por mais que tente...

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Por mais que tente afastar-me das paixões acesas por coisa nenhuma, continuo a ter pouca tolerância para certos queixumes.  É quando tento aceitar que é tão em vão os outros queixarem-se, como eu irritar-me com isso. Torno a focar nos motivos para me sentir grata e aguardo o minuto seguinte de paz... que teima em tardar.

Parece-me tudo inútil; todo um gasto energético desnecessário. Mas hoje não houve técnica nenhuma a devolver-me à tranquilidade.

Talvez precise de descansar. Talvez precise de continuar a tentar. Talvez deva aceitar que dar-me conta das minhas limitações é um (possível) passo na direcção certa.

 

“And so we ought to adopt a lighter view of things, and put up with them in an indulgent spirit; it is more human to laugh at life than to lament over it. Add, too, that he deserves better of the human race also who laughs at it than he who bemoans it; for the one allows it some measure of good hope, while the other foolishly weeps over things that he despairs of seeing corrected.” - Seneca, On Tranquility of Mind

15
Mai19

O cansaço era imenso...

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O cansaço era imenso quando voltei costas à vida que conhecia: trabalho e casa... para dormir. Vivia a intervalos de dois dias a cada cinco. Que desesperança. Que falta de sentido. Que compasso sincopado para o abismo.

Com a noção de ter recuperado o controlo para decidir a vida que quero viver - mesmo quando a vida se mete no caminho - encontrei tranquilidade para tentar crescer. 

Hoje, com tempo, consigo sair do meu juízo precoce, olhar o outro nos olhos e senti-lo igual a mim na humanidade. Isso é o bastante para aproximar e aplacar, ainda que tão fugazmente, a solidão alheia. A falta de tribo. Pior que lança inimiga cravada no peito. 

Nessa empatia, é possível desenhar um sorriso no mar de lágrimas que nasce da ferida.

08
Mai19

A esta altura a minha existência...

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A esta altura a minha existência é um fogo cruzado de pensamentos. Talvez precise de horas e dias de reflexão para os encaixar de forma a que façam sentido ou talvez precise de estudar mais. Provavelmente ambas.

Ando perdida na leitura de Séneca... sobre a brevidade da vida; as consolações; sobre a tranquilidade da alma. Leio, releio, sublinho, passo à frente e volto atrás.

Por outro lado, o minimalismo como movimento parece dever muito a esta filosofia do estoicismo, mas ainda não consigo chegar ao aforismo conjunto que, em última instância, me faça encontrar (o) sentido.

O minimalismo, enquanto fase inicial de reduzir “coisas”, dá-nos sem dúvida espaço para pensar o que é essencial. Retira a desarrumação física da equação, para se poder começar a arrumar a cabeça e a vida. E, caramba!, se eu arrumei as coisas. A casa é ampla e o dinheiro estica. O tempo é imenso. Mas sinto que a essência me continua a escapar... 

De Sobre a Brevidade da Vida retirei a leveza de não me sentir louca na necessidade, desde cedo sentida, de ser meu o meu o tempo. Como nos batemos com armas pelo espaço roubado pelo outro, mas como somos cegos ao roubo do nosso bem mais precioso: o tempo. Pior, como somos os primeiros a cedê-lo sem pensar duas vezes. 

Tudo numa correria de casa para trabalho para casa, para subir numa escada corporativa que leva a dinheiro que leva a coisas que leva... a nada. Porque no fim, o precioso tempo acaba para todos e, com esse, não nos preocupámos um segundo. 

 

“The actual time you have (...) inevitably escapes you rapidly; for you do not grasp it or hold it back or try to delay that swiftest of all things, but you let it slip away as though it were something superfluous and replaceable.” - Seneca, On the Shortness of Life

 

“No one will bring back the years; no one will restore you to yourself. (...) You have been preoccupied while life hastens on. Meanwhile death will arrive, and you have no choice in making yourself available for that.” - Seneca, On the Shortness of Life

 

“The greatest obstacle to living is expectancy, which hangs upon tomorrow and loses today.” - Seneca, On the Shortness of Life

 

E, no meio destas leituras, ouvi o episódio do Podcast “Break the Twitch” - Align Money & Happy. No resumo final, feito por Anthony Ongaro, encontrei algum sentido conjunto. 

Dinheiro é uma medida de tempo. Foi tempo gasto (ou perdido?) que se transformou em determinada moeda. Se a gastamos em coisas que não acrescentam valor à nossa existência; se o gastamos no “twitch” da compra com um simples clique... que estamos nós a fazer se não a desperdiçar a vida? Porque esse dinheiro foi tempo, foi vida que ficou por viver.

 

 

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