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com a cabeça entre as orelhas

com a cabeça entre as orelhas

04
Set20

Setembro nasceu com as cores da saudade...

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Setembro nasceu com as cores da saudade, enquanto eu vou aprendendo a existir comigo mesma. A deixar atrás a vida sonhada. 

Ao entrar em casa penduro a ilusão como quem despe o casaco. 

Cá dentro nada. Cá dentro tudo.

Há um cansaço na forma de pensar e uma necessidade por identificar.

Pudesse eu ser diferente de mim.

10
Mai20

A mensagem chegou no fim do dia.

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A mensagem chegou no fim do dia. Chegou enquanto eu saía de palco. Fantasia despida à porta. 

Com o volante apertado entre as mãos, chorava a alma... se conseguisse manter a direcção e chegar ao destino.  As luzes da cidade em estrelas de lágrimas através do teu olhar... se conseguisse endireitar o sentido da minha existência.

Cada instante. A tua mão na minha perna enquanto atravessávamos o verde do país que nunca foi o nosso. Quando as músicas eram alegres. 

Cada instante. O aroma. Aquele que teimou em ficar.

A mensagem chegou no fim de um dia e nunca mais voltou a tocar. 

 

No, I'm six gin and tonics down, baby, I can hardly stand...

29
Jan20

A questão surgiu...

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A questão surgiu durante o episódio “Desire” do The Minimalists Podcast - “Qual a coisa, dos últimos 7 dias, que vais recordar daqui por 10 anos?”.  É uma pergunta cheia de curvas. É ansiogénica. 

De facto, o que tende a ficar é o trauma. Aquele instante em que se ouve, por dentro, o estilhaçar do osso. Em que a lembrança é eternamente recém-nascida.

O tempo cura tudo, bem sei. O problema é quando parte do tempo pára e a eternidade (in)desejada se apresenta vestida de perigo. 

Assim foste tu. Deixaste o relógio partido, a marcar a hora do crime. 

Daqui por 10 anos espero não me lembrar de nada, se isso significar que o meu ponteiro dos segundos voltou, finalmente, a andar.

26
Jan20

Ainda sei a que sabia o ar gelado...

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Ainda sei a que sabia o ar gelado na distância encurtada por nós.

A mudança das marés. A tonalidade do céu. O dia feito noite. 

Ainda sei o instante em que ganhaste textura em mim.

Adeus a ti e a mim; a nós e aos outros. A todos os passados que se vislumbram na neblina.

Recordação é a pele que teima em ficar. Lembranças, as cartas rasgadas, perdidas no horizonte do tempo.

15
Dez19

Num dia de acaso...

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Num dia de acaso vi-te descer a rua em passo decidido. 

Com a armadura virada do avesso o toque aveludado prometia doçura.

Nesse dia de acaso cruzaram-se as linhas da nossa existência. 

Entre sorrisos e lágrimas, mantém-se a promessa... longe do olhar que te viu chegar.

12
Jun19

Não acho que um instante...

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Não acho que um instante nos possa definir enquanto pessoas. Talvez enquanto pessoa naquele preciso instante. 

Talvez não tenhas sido correcta em tantos desses instantes comigo, mas não acho que nada disso te defina hoje ou amanhã. Como no livro, o passado é um país estrangeiro.

Vi tanta miséria hoje. Que podia ser eu. Que podias ser tu. Somos nós nas nossas circunstâncias. 

Pela primeira vez consigo dar um passo no sentido da libertação.

 

“The past may or may not be a foreign country. It may morph or lie still, but its capital is always Regret (...)” - André Aciman, Enigma Variations

10
Jun19

Acabei o livro.

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Acabei o livro (Enigma Variations). Deve estar muito bem escrito porque senti toda a angústia. Aquela que já é minha também. Não foi fácil de digerir, ainda que o fim tenha sido um pouco anti-climático.

Satisfaz-me, contudo, ter percebido o instante a partir do qual nada, nunca mais, seria igual. 

De costas para a cidade, olhar perdido nas águas do Tejo, sabendo que aquele instante seria o último de paz, sabendo que o segundo imediatamente a seguir a levantar-me do banco deixava sentada a alma e arrastava o corpo por uma cidade vazia. 

Será isso o vinho da vida? A consciência exacta de cada instante pelo instante que é? Tenho tantas saudades daqueles minutos, ainda sentada. Antes de tudo.

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