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com a cabeça entre as orelhas

com a cabeça entre as orelhas

10
Mai20

A mensagem chegou no fim do dia.

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A mensagem chegou no fim do dia. Chegou enquanto eu saía de palco. Fantasia despida à porta. 

Com o volante apertado entre as mãos, chorava a alma... se conseguisse manter a direcção e chegar ao destino.  As luzes da cidade em estrelas de lágrimas através do teu olhar... se conseguisse endireitar o sentido da minha existência.

Cada instante. A tua mão na minha perna enquanto atravessávamos o verde do país que nunca foi o nosso. Quando as músicas eram alegres. 

Cada instante. O aroma. Aquele que teimou em ficar.

A mensagem chegou no fim de um dia e nunca mais voltou a tocar. 

 

No, I'm six gin and tonics down, baby, I can hardly stand...

01
Mai20

Maio.

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Maio. Levanta o véu da possibilidade. Tem promessa de mar.

Ou Maio de outro ano qualquer; que em breve o passado é o mesmo e visto de cima os dias esbatem-se uns nos outros.

À distância suficiente tudo é pequeno. 

 

What a night! What bliss is all about!

I thank my native north country!

From the kingdom of ice and snow,

How fresh and clean May flies in!

- Afanasy Fet

(Epígrafe da partitura de Tchaikovsky para o mês de Maio - White Nights!)

10
Abr20

Fato de circulação. Touca. Viseira. Máscara P2...

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Fato de circulação. Touca. Viseira. Máscara P2. Protector de calçado. 1º par de luvas. Bata. 2º par de luvas.

O covidário é um espaço hermético onde o silêncio e o som se misturam numa cacofonia de coisa nenhuma. Somos todos iguais com o equipamento de protecção. Somos todos iguais como sempre fomos, que a pandemia veio reforçar a essência humana.

O covidário pediátrico tem por trás o som das vozes e do choro de crianças.

No meio do desconforto pareceu-me ouvir ópera, mas havia tanto ainda a fazer. Tudo no ritmo lentificado de teclados cobertos com película aderente e movimentos tolhidos pelo equipamento e pelo receio de falhar algum passo de desinfecção.

Pareceu-me, novamente, ouvir ópera por entre o choro. Mais do que ouvir senti  nas entranhas que era a música da minha existência. Estava novamente na Gulbenkian. E a Prima Donna... não pude deixar de sorrir.

Levantei-me e fui ter com a mãe da criança que aguardava mais exames e perguntei-lhe “Está a ouvir ópera?”, o telefone pousado no banco vazio ao lado. Perguntei-lhe se era música. Disse-me que não e explicou-me que nunca teve oportunidade de ir à ópera, que adora. Que a voz da Callas a arrepia e tranquiliza em momentos como aquele. Fez jeito de desligar o telefone feito aparelhagem. Disse-lhe que se deixasse estar a ouvir. Vi-lhe o sorriso na curva do olhar, que agora as bocas andam tapadas.

Nestes momentos somos (mais)  humanos.

16
Fev20

Todas as mulheres que amei.

Recostei-me no lugar habitual. O azul do céu do fim de dia emoldurava o verde das copas das árvores. Da zona do palco conhecido, vazio, chegavam alguns sons repetidos, em jeito de aquecimento.

Trouxeste contigo outra tonalidade de azul - densa; concreta. E essa outra moldura abraçava a pele dos ombros que eu despi lentamente ao som de mil pássaros em vôo.

Há tantos anos atrás a música havia parado. Naquele instante, com a tua chegada, reiniciaste o compasso.

12
Jan20

Todas as mulheres que amei.

Sob o olhar sobranceiro de quem dirigia a turma trocavam-se bilhetes e borrachas, lápis ou afias, comentários ou risos transformados em sorrisos pelo silêncio imposto.

Da escadaria que parecia terminar à porta do primeiro andar da eternidade, o branco etéreo filtrado pela sua clarabóia inatingível, saíam patamares a cada lado. Era aí que esperávamos. Eram esses minutos, esse encontro, que faziam da escola o sítio onde queríamos estar. Até porque nenhum de nós precisava, de facto, de lá estar. Era a escola depois da escola. Era a magia dos arco-íris depois das paredes monocromáticas das manhãs repetidas.

Saindo de umas aulas a caminho de outras.  Fugindo para salas com contrabaixos onde fingíamos ser músicos de jazz no meio da formação clássica. Escapávamo-nos para as salas de percussão onde aparentemente o ruído era permitido, desde que respeitados os silêncios entre ritmos. Trocávamos instrumentos, arranhávamos violinos e soprávamos em trompetes, com aquele que sabia o truque catalisador da sonoridade a aquiescer que “até nem estava mal”.

Foi nesses primórdios de vida e possibilidade, depois da sinfonia do modem a ligar-se à linha telefónica, que o teu correio chegou, à velocidade medida em KB. Chegou com o estrondo de uma bomba a cair no meio de outro local de impacto. 

Uma mulher. No meio de outra mulher. Com outra que não era mais que uma miúda. A gerir coisa nenhuma. Uma declaração de amor, em código binário, que viria a alterar para sempre a vida vivida naquela escola. Foi o instante em que a música parou.

12
Jul19

Que nunca me esqueça...

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Que nunca me esqueça do grande auditório numa manhã de verão com cara de outono. 

A patética na estante do piano, professor e aluna discutindo a divisão do tempo, as articulações das frases, quando entra uma cara de outros tempos, de violino na mão, a surpresa pelo auditório com gente.

As hesitações e o silêncio entre as partes, interrompidos por:

- Preciso de um lá!

- Um lá!, respondi tocando... E assim soou; e assim seguiu, violino na mão com a corda afinada. 

Possa a vida ter sempre a leveza de uma nota.

05
Jul19

É chegada a altura...

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É chegada a altura de voltar a Beethoven.

Escolhi a Patética. Irónico.

Ainda assim opto por acreditar que move, apenas. Nem dó, nem piedade, nem ridículo. (Co)move.

Foi o primeiro transdutor das minhas emoções. O que quer que martelasse de Beethoven saía em harmonia, em beleza, em leveza, em menos dor. Uma espécie de meditação em si mesma.

08
Jun19

Hoje não me apetece.

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Hoje não me apetece.

Foram horas de estrada má com o azul a encimar o vermelho e o verde. O vermelho da ilha; da terra que se cola às caras e às casas. O verde dos arrozais sem fim.

Horas de estrada má e música. Lembranças de tempos idos em viagens distantes contigo. O meu outro eu. A banda sonora da viagem iria certamente agradar-te. 

Hoje foi a vida vista na paisagem corrida. Quem conheci. As oportunidades que me foram oferecidas por coisa nenhuma.

Ilha vermelha. Não sei o que me chamou aqui, mas relembrei o que consigo ser e fazer. Não sozinha. Jamais sozinha. Mas sem ti. Esse outro tu. Com todos os outros à volta. Quem me ouve à noite. Quem me aprecia de dia. Quem me oferece um sorriso inesperado em dias de frio. 

Não sozinha. Nunca me senti tão perto do mundo como aqui.

 

Goodbye to the friends I've had
And I finally found my stride when I walked in the background

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